10 ago 2020

Grupo Siemens se reestrutura para crescer em energia

Gigante alemã criou a Siemens Energy e Brasil é visto como um mercado central para a nova estratégia do grupo

Fonte.: Valor Econômico. / Letícia Fucuchima — De São Paulo

De olho no desafio mundial de transição energética e descarbonização, o grupo alemão Siemens está se reorganizando para ampliar sua presença no setor de energia. O plano passa pela criação da Siemens Energy, uma cisão (spin-off) da gigante alemã que nasce commais de 90 mil funcionários no mundo e receita de •30 bilhões. Nessa nova estratégia, o Brasil – referência na geração renovável de energia – aparece como um mercado central, afirmaram executivos da companhia, em conversa com o Valor.

Anunciada no ano passado, a nova empresa está em fase final de constituição. Em julho, os acionistas do conglomerado deram sinal verde para uma oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da Siemens Energy, que está prevista para ocorrer na Bolsa de Frankfurt até o início de outubro. A Siemens abrirá mão da sua participação majoritária na nova empresa, mas continuará como acionista-âncora.

Enquanto a operação é preparada, várias mudanças internas já aconteceram. No Brasil, por exemplo, houve uma dança das cadeiras: quem assume a direção da Siemens Energy é o CEO, André Clark, do grupo Siemens no país. No seu lugar, entra Pablo Fava, ex-vice presidente sênior da Digital Industries no Brasil.

“A Siemens Energy está ganhando mais liberdade para investir, e acredito que este será um dos principais fatores de sucesso da empresa. A agenda dela é bem diferente da que traçamos para a Siemens, focada na indústria e nas cidades”, explica Fava.

No processo de cisão, a nova companhia leva consigo os negócios relacionados a petróleo e gás, geração e transmissão de energia e serviços relacionados, além da participação majoritária do grupo na Siemens Gamesa, de engenharia eólica. Já a Siemens se dedicará aos segmentos de automação, digitalização industrial e infraestrutura inteligente.

Em energia, os principais vetores de crescimento para o grupo estão nos elos de geração e transmissão. São áreas de grande potencial para o mercado brasileiro e nas quais a Siemens já detém participação relevante. Seus equipamentos e sistemas são responsáveis por 50% da geração, transmissão e distribuição de eletricidade do país.

“O Brasil é uma potência para as renováveis. A solar está em forte crescimento em todo o território nacional. Na área eólica, o Brasil seguirá crescendo onshore [em terra] e alguns investidores já começam a olhar o offshore [no mar]. Em transmissão, os negócios continuam se expandindo a taxas significativas, vemos isso nos leilões, ainda não está maduro como em outras regiões do mundo”, avalia Clark.

Também está na mira da empresa o novo mercado de gás, uma das grandes apostas da equipe econômica do governo para a retomada pós-pandemia. Na visão do presidente da Siemens Energy, o gás natural será o combustível de transição e ajudará a acelerar a entrada das renováveis na matriz energética brasileira. “As renováveis têm a característica de intermitência, fontes despacháveis [como termelétricas a gás] são importantes para garantir segurança”, destaca.

Além de fornecer equipamentos e soluções para projetos termelétricos, a Siemens é sócia em dois deles: o Gás Natural Açu (GNA 1), junto da Prumo Logística e da BP; e a usina de Coari, em conjunto com a Amazonas Energia (distribuidora da Eletrobras que foi privatizada).

Segundo Clark, novos investimentos do gênero estão no radar. Ele destaca a forte procura por “Energy as a Service”, modelo em que o cliente contrata uma solução completa e integrada de geração ou eficiência energética. “Mesmo os grandes clientes industriais não querem colocar capital numa estrutura exclusiva de geração de energia, transformadores, etc. Então começamos a servi-los dessa forma”. Um exemplo é a parceria fechada no ano passado com a Braskem para modernização do sistema elétrico da central petroquímica no polo de ABC (SP).

Na outra ponta, a Siemens ficará dedicada à “revolução digital” nas cidades e indústria. No Brasil, a aposta é que os negócios ganhem fôlego com o novo marco regulatório de saneamento, que representou um impulso à agenda de cidades, afirma Fava. No ramo industrial, o executivo diz que a busca por digitalização e automação é crescente e vem se tornando mais intensa mesmo entre setores já competitivos em âmbito internacional, como mineração e papel e celulose.

Ainda não há definição sobre como ficará o plano de investimento no Brasil. Em 2018, a multinacional se comprometeu com aportes de cerca de • 1 bilhão até 2023. “É cedo para dizer, mas a lógica me diz que [o plano] será mantido. Os investimentos estão no cronograma e até mais acelerados”, diz Clark.

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