04 fev 2021

Cemig vê boas condições para venda de ativos

Concluída a saída do quadro societário da Light, estatal mineira se concentra nos próximos desinvestimentos da fila

Fonte.: Valor Econômico / Letícia Fucuchima — De São Paulo

Em meio ao processo de “volta às origens”, a Cemig pretende deslanchar neste ano seu plano de venda de ativos, que cumpriu uma meta importante no mês passado com a conclusão da venda da fatia na Light. A ideia é impulsionar esse processo, num contexto de mercado visto como favorável, arrecadando recursos bilionários para investir nas atividades tradicionais da Cemig, principalmente no Estado de Minas Gerais.

“Está muito claro o que queremos: investir em distribuição, geração e transmissão de energia, com controle acionário [dos ativos], sem ser uma holding de participações. Esse

modelo não funcionou, destruiu muitíssimo valor, vamos focar nos negócios que temos competência”, disse o presidente da estatal mineira, Reynaldo Passanezi, em entrevista ao Valor.

Lançado em 2017, originalmente com o objetivo de reduzir o elevado endividamento da empresa na época, o programa de desinvestimentos da Cemig inclui participações em geradoras, transmissoras, usinas hidrelétricas, entre outros. Até então, os grandes marcos foram a venda do braço de telecom, em 2018, e mais recentemente a saída do quadro societário da Light. No último caso, foi feito em duas etapas: em 2019, a Cemig se desfez de 27,3% das ações que possuía, abrindo mão do controle, e agora em janeiro vendeu mais 22,6%.

Passanezi calcula que todo o processo de desinvestimento da Light trouxe à Cemig R$ 4,1 bilhões, entre recursos obtidos com o “follow on” de saída (R$ 1,37 bilhão), os montantes que a empresa evitou desembolsar para acompanhar as últimas capitalizações da elétrica fluminense e créditos tributários.

“Esse valor [R$ 4,1 bilhões] representa quase 50% da base de remuneração regulatória da nossa distribuidora, que é de R$ 8,9 bilhões. Dá para ter uma ideia do que significou, do ponto de vista de recursos, a entrada em várias participações: não ter espaço para investir no negócio principal”, destaca o presidente da estatal mineira.

Segundo ele, grande parte dos recursos da saída da Light já está sendo direcionada para a área de distribuição.

Sobre os próximos desinvestimentos, o executivo acredita que as condições de mercado são favoráveis para atrair ofertas competitivas, principalmente para as fatias na transmissora Taesa e na geradora Aliança Energia, joint venture com a Vale. “O segmento de transmissão tem múltiplos muito atrativos. Na geração isso também ocorre, mas nossos investimentos têm complexidades. De modo geral, não vejo hoje um problema de preços pouco atrativos”, afirma Passanezi.

A avaliação é de que algumas vendas são mais “simples”, incluindo a da Renova Energia, que teve seu plano de recuperação judicial aprovado no fim do ano passado, encerrando um período de incertezas sobre o futuro da companhia. Já outros processos apresentam maior grau de dificuldade, até por envolverem participações minoritárias – nesse grupo, estão as hidrelétricas Santo Antônio e Belo Monte. “Nesses casos precisaríamos juntar outros acionistas, fazer um bloco.”

A estatal também pretende dar andamento, neste ano, ao plano de abertura de capital de sua distribuidora de gás, a Gasmig. Por uma limitação da constituição mineira, a Cemig deve permanecer como controladora. “Nosso plano na Gasmig é muito mais de governança, de preparar para a listagem (…)

Achamos que ela representa um valor escondido na Cemig que o mercado não enxerga”, diz Passanezi. Ele acrescenta que a distribuidora já tem um plano “ambicioso” de expansão em áreas urbanas, que pode ser potencializado pela abertura do mercado de gás.

Ex-presidente da ISA Cteep de 2013 a 2019, Passanezi acaba de completar um ano no comando da Cemig. O executivo assumiu a presidência em janeiro de 2020, no lugar de Cledorvino Belini, que renunciou ao posto por motivos pessoais mas permanece no conselho de administração da estatal.

Um dos destaques do primeiro ano da gestão de Passanezi é a melhora no desempenho da distribuidora mineira, uma das maiores do país, com mais de 8,5 milhões de consumidores. Pela primeira vez na história, a empresa deve atingir os patamares regulatórios de custos operacionais (Opex) e do indicador de qualidade DEC (duração de interrupção no fornecimento de energia).

“No ano passado, nosso foco foi cumprir o DEC, que é fundamental para garantir a viabilidade da concessão por 25 anos. Já 2021 é o ano da digitalização, esperamos melhorar de forma visível o atendimento aos clientes com soluções de mercado, além de digitalizar as operações”.

Os negócios em geração também prometem novidades. Apoiado pelo conselho de administração, Passanezi revisou o plano estratégico da elétrica e, entre outras mudanças, inverteu o direcionamento da área: a Cemig voltará a crescer com projetos

próprios de geração, sobretudo solar e eólica. A previsão é alcançar até 1 GW nessas fontes, que teriam sua energia vendida no ambiente de contratação livre (ACL) através da comercializadora da Cemig, uma das maiores do mercado.

No caso da energia solar fotovoltaica, existe uma ampla via de crescimento para a Cemig no próprio Estado – Minas é a principal “potência” do país nessa fonte, concentrando o maior número de empreendimentos solares de pequeno e grande porte. A ideia da estatal é investir tanto na geração centralizada, negociando contratos principalmente no mercado livre de energia, quanto na geração distribuída, de usinas até 5 MW.

Já em energia eólica, a elétrica realizou, no ano passado, uma chamada pública para aquisição de projetos. Nesse caso, os projetos poderão ser desenvolvidos em outros estados, onde os ventos são mais favoráveis à geração, como no Nordeste.

Em transmissão de energia, a Cemig está avaliando participar de leilões e estuda aquisições no mercado secundário, com foco em ativos sinérgicos com suas operações. Além disso, vem investindo em reforço e melhoria da rede existente.

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