27 nov 2020

Falhas em equipamentos do Amapá já eram conhecidas

Situação pode ter desencorajado empresas a entrar na disputa pelo serviço no ano passado

Fonte.: Valor Econômico  / Por Rafael Bitencourt

As condições dos equipamentos da subestação de energia de Macapá, que apresentaram falhas na noite do dia 3 de novembro e provocaram o apagão no Estado do Amapá, podem ter desencorajado transmissoras que atuam no Brasil a adquirirem no ano passado os ativos do grupo espanhol Isolux Corsán.

Trocas de informações entre os grupos dão conta de que um dos transformadores já apresentava problema na bucha de contenção de óleo. Falha relacionada à “bucha danificada” foi apontada pelo relatório preliminar do Operador Nacional do Sistema (ONS) como um dos fatores da “contingência múltipla” associada às causas do blecaute.

A Gemini Energy, que controla a concessionária Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE), nega que os equipamentos mantidos pela Isolux, que enfrentou processo de recuperação judicial, deixaram de receber os investimentos necessários.

A companhia destacou que “fez diligência técnica com um time de primeira linha, que certificou que se tratavam de ativos de qualidade e ainda identificou que qualquer necessidade de investimento estava sendo contemplada”. A Gemini Energy é controlada por fundos de participação geridos pela Starboard, com 80%, e pela Perfin, com outros 20%. O grupo assumiu a LMTE no fim do ano passado, na reestruturação societária da Isolux.

O Valor apurou que a antiga falha no transformador da subestação de Macapá chegou a ser fotografada por uma das transmissoras que fizeram a vistoria em 2019. A imagem teria circulado entre as transmissoras no Brasil.

Durante a “due diligence” realizada nas linhas da Isolux, outra empresa de energia espanhola, a Celeo Redes, teria feito uma análise minuciosa do empreendimento. Havia forte interesse da matriz na Espanha pela aquisição das linhas de sua concorrente direta, mas desistiu.

Duas versões correram sobre a desistência da aquisição. Uma, que os engenheiros no Brasil conseguiram convencer os chefes de que era um mau negócio, pela má condição dos equipamentos. Outra, que a empresa, a exemplo das demais transmissoras com operação no Brasil, não tinha a “expertise” para resolver o complexo processo de recuperação judicial da Isolux na Espanha, nem capacidade financeira para fazer o aporte de 9 bilhões de euros demandados pela negociação com os credores.

Parte do relatório que circulou teria sido elaborado por técnicos da própria Celeo Redes e chegado às mãos das demais transmissoras, como Equatorial Energia, a chinesa State Grid e Alupar.

Questionada, a Celeo Redes não confirmou nem desmentiu a história. A empresa limitou-se a dizer que “quaisquer transações de mercado são objeto de cláusulas de confidencialidade, e neste caso, não podemos fazer uma exceção às mesmas”. As demais companhias citadas pela reportagem não responderam ao pedido de informação.

O Valor teve acesso à foto que circulou entre as empresas. A imagem indica uma bucha danificada de um dos transformadores da subestação de Macapá. Um especialista, consultado pela reportagem, explicou que o aparente vazamento do óleo pode resultar no aumento da temperatura do transformador durante a operação. Isso, por sua vez, pode ocasionar um superaquecimento e até a explosão do equipamento.

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